Mi Coluco All articles
Humor

Diz aí, oxente: o dicionário de gírias brasileiras que ninguém consegue traduzir

Mi Coluco
Diz aí, oxente: o dicionário de gírias brasileiras que ninguém consegue traduzir

Se você já tentou explicar pra um gringo o que significa 'arretado da moléstia', sabe que a experiência termina sempre do mesmo jeito: com você suando a camisa, gesticulando feito um tradutor simultâneo em crise e ouvindo um educado 'so... it's good or bad?'. Pois é, amigo. Não é good, não é bad. É arretado. E é isso que vamos decifrar hoje.

O 'uai' que não quer dizer nada (mas quer dizer tudo)

Comecemos por Minas Gerais, terra do pão de queijo e da partícula mais versátil do idioma português: o 'uai'.

'Uai' pode ser surpresa, dúvida, indignação, confirmação ou simplesmente um ponto final educado. 'Uai, num é possível!' é indignação. 'Uai, sô' pode ser saudação. E se um mineiro disser 'uai' depois de tudo que você falou, parabéns: você foi aceito na família.

O melhor? Nenhum dicionário consegue definir. O Google Tradutor trava, o gringo desiste e o mineiro segue em frente, tranquilão, trocando o 'você' por 'tu' e o 'está' por 'tá num' sem nem perceber o estrago.

Arretado, oxe e o nordeste que ganhou a discussão

Agora pega a ponte pra Pernambuco, Ceará e companhia. O nordestino tem o superpoder de transformar qualquer palavra em intensidade máxima.

'Arretado' sozinho já é ótimo — pode ser 'incrível' ou 'muito bravo', dependendo do tom. Mas o combo completo é 'arretado da moléstia', que traduzido literalmente seria algo como 'impressionante da doença' e faz ainda menos sentido. E funciona. Sempre funciona.

Some o 'oxe' (que é o 'uai' nordestino, mas com mais atitude) e o 'é pra já' (que significa 'imediatamente', mas com um carinho embutido que nenhum 'ok' carioca alcança). O gringo que aprendeu português em escola de idiomas chega ao Nordeste e pede um segundo de licença pra processar.

O sul que fala 'tri' e o brasileiro do sudeste que finge entender

Lá no Sul, a galera joga um 'tri' no meio da frase e segue o baile. 'Tri legal', 'tri massa', 'tri buono' (esse último já com sotaque de colônia italiana, porque o Sul é assim: um remix). O 'bah' gaúcho funciona igual ao 'uai': não significa nada e significa tudo. 'Bah, mas que isso' pode ser elogio, ofensa ou anúncio de briga. Boa sorte decifrando.

Já o carioca, claro, tem o 'e aí, meu irmão, deixa pra lá, mano, é isso aí, valeu, tá ligado?' — que é tecnicamente uma frase, mas na prática é um parágrafo inteiro de negociação emocional comprimido em cinco segundos.

Quando o brasileiro não entende o brasileiro

A piada fica ainda melhor quando a confusão é interna. Um paulistano em Belo Horizonte ouvindo 'cê tá bão da vida?' entra em modo pânico. Um nortista dizendo 'firmeza, cria?' pra um capixaba gera dez minutos de silêncio constrangido.

E tem o clássico: 'uai, o menino é arretado, tri massa, tá ligado, my friend'. Se essa frase sair da sua boca, você oficialmente virou um cidadão do Brasil inteiro. O passaporte das gírias.

O teste: de qual região é a sua 'língua materna' de gírias?

Responda com sinceridade:

  1. Alguém te conta uma boa notícia. Você reage com: a) 'Uai, num brinca!' b) 'Oxe, arretado!' c) 'Bah, que tri!' d) 'Caraca, mano!'

  2. Você precisa pedir desculpa por um atraso: a) 'Foi mal, uai, o trânsito tava osso' b) 'Me perdoa, visse? É pra já que eu chego' c) 'Bah, me desculpa, tive um perrengue' d) 'Mano, deixa eu te contar o que aconteceu...'

  3. Sua reação a um preço absurdo: a) 'Uai, num é possível' b) 'Tá querendo demais, oxente' c) 'Tá tri caro, isso' d) 'Tá maluco, mano?'

Resultado: a maioria em A? Seu coração é mineiro. Em B? Nordestino raiz. Em C? Gaúcho de alma. Em D? Carioca de plantão, mesmo que nunca tenha visto o mar.

No fim das contas, a maior gíria brasileira talvez seja essa capacidade toda: a gente fala cinquenta línguas num país só e ainda assim se entende — geralmente rindo. E isso, meu amigo, é arretado da moléstia. Ou tri. Ou uai. Tanto faz: você já sabe o que eu quis dizer.

All Articles

Related Articles

Quando fila de banco virou memória afetiva: a indústria de vender sua infância de volta (por um preço absurdo)

Quando fila de banco virou memória afetiva: a indústria de vender sua infância de volta (por um preço absurdo)